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Carta do Leitor – A cadeira vazia e o estelionato eleitoral: Até onde vai a paciência do povo?

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Escrevo movido por um sentimento de perplexidade que, embora pareça particular, transborda hoje em cada conversa de esquina e em cada postagem nas redes sociais de nossa cidade. O tema é tão delicado quanto urgente: a recente decisão de um vereador licenciado por 120 dias em protelar ou simplesmente desistir do compromisso assumido perante o altar da democracia — o voto popular.

O que assistimos, na prática, não é apenas um afastamento administrativo, mas um verdadeiro abandono de posto que beira a traição contra aqueles que depositaram nele suas esperanças.

É preciso dar nome aos bois e contextualizar a gravidade do fato. Estamos falando de um representante que utilizou como principal vitrine e plataforma de campanha a pasta da Saúde. Em qualquer lugar deste país, e em nosso município não é diferente, a saúde é o setor que mais gera apelo e, simultaneamente, o que mais sofre com carências.

É onde o cidadão mais sente a dor da espera e a necessidade de investimento pesado. Usar essa fragilidade social para se projetar e, logo em seguida, dar as costas ao mandato, revela uma face oportunista que a política moderna não deveria mais comportar.
A questão aqui transcende a legalidade. Sabemos que a nova legislação permite o afastamento por até 120 dias sem remuneração, mas o que é legal nem sempre é moral.

Esse hiato criado pelo vereador gerou um vácuo de representatividade que expôs uma ferida ainda maior: a fragilidade das nossas suplências. É vergonhoso notar que os suplentes imediatos encontram-se impossibilitados de assumir a cadeira por possuírem contratos de aluguel com a prefeitura ou por já ocuparem cargos comissionados no Executivo. Isso escancara uma ausência total de interesse e de preparo em assumir uma responsabilidade dessa magnitude. Afinal, onde está o compromisso com o Legislativo?

Outro ponto que merece uma reflexão ácida é a funcionalidade da nossa Câmara. Recentemente, acompanhamos a conturbada transição de nove para 11 vereadores, sob o argumento de que mais vozes representariam melhor a comunidade. Pois bem, hoje a Casa caminha “normalmente” com dez integrantes. Se a ausência de um parlamentar não faz falta ao processo legislativo, fica a pergunta incômoda: para que serviu o aumento de cadeiras e gastos? A cidade está perplexa ao perceber que o planejamento de quatro anos de trabalho — que deveria ser pautado pela dedicação absoluta — pode ser atropelado por decisões intempestivas e interesses que o cidadão comum desconhece.

O maior perigo, entretanto, reside na nossa própria volatilidade. Vivemos tempos onde a indignação digital corre na velocidade da fibra ótica, mas a memória política parece ter a duração de um “story” de Instagram. Com a mesma facilidade que elaboramos críticas ferozes hoje, corremos o risco de apagar o registro da cobrança amanhã. O político irresponsável conta exatamente com esse esquecimento. Ele aposta que, nas próximas eleições, o calor do discurso de palanque apagará as marcas do abandono de hoje.

Portanto, esta carta serve como um manifesto de conscientização. Que o eleitor exercite seu dever de cobrar não apenas agora, mas nas urnas que se aproximam. A política é coisa séria e a “canetada” de quem governa tem consequências reais na vida de cada família. Se existe hoje esse comportamento negligente, a responsabilidade final volta para quem votou.

Não há por que chorar sobre o leite derramado ou fazer barulho estéril na internet se não houver um exercício de consciência contínuo. O voto não é uma permuta ou uma barganha; é um contrato de quatro anos de trabalho. Quem desiste no meio da travessia não merece o privilégio de ser reconduzido ao porto.

Atenciosamente,
Um Leitor em Vigilância.
Barra Velha – SC

Foto: Cadeira Vazia ilustração 

Cristiano Zonta

Jornalista, Mestre de Cerimônias e Celebrante Social de Casamentos.



Folha Parati

O Jornal Folha Parati, a “voz metropolitana da região”. Foi com esse intuito que nasceu a proposta do jornal que teve sua primeira edição impressa circulando em Barra Velha, São João do Itaperiú e Araquari, gratuitamente, no dia 07 de dezembro de 2009, dia comemorativo ao aniversário de Barra Velha.


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