
O que começou como uma investigação sobre uma quadrilha especializada em fraudar concursos públicos terminou atingindo o topo da segurança pública de Alagoas. O delegado-geral da Polícia Civil do estado, Gustavo Xavier do Nascimento, passou a ser citado nas apurações da Polícia Federal como suspeito de ter se beneficiado de um esquema criminoso que deveria combater.
Segundo a investigação, revelada nacionalmente em reportagem exibida pelo Fantástico no domingo, 22 de março, a suspeita é de que, ao descobrir o funcionamento da organização, o então delegado não tenha avançado para desmontá-la. De acordo com a delação premiada do apontado líder do grupo, Thyago José de Andrade, ele teria sido pressionado a colocar a estrutura da fraude a serviço de pessoas ligadas ao delegado.
A gravidade do caso aumenta porque a delação não fala apenas em omissão. O colaborador afirma à PF que Gustavo Xavier, quando atuava em Arapiraca, chegou a obter mandado de prisão contra ele, mas que, em vez de cumprir a ordem judicial, teria exigido que o investigado passasse a operar fraudes em concursos para favorecer familiares e aliados. Até a esposa do delegado, Ayally Xavier, aparece citada na investigação. Segundo a apuração, ela teria tentado usar ponto eletrônico durante uma prova para delegada da Polícia Civil de Alagoas, mas o equipamento falhou e a prova acabou sendo entregue em branco.
A PF sustenta ainda que o esquema funcionava com métodos sofisticados e variados: uso de pontos eletrônicos, acesso antecipado a questões e temas de redação, violação de lacres, envio de respostas durante a prova e até “candidatos fantasmas”, contratados para fazer exames no lugar dos inscritos. Em alguns casos, o preço da fraude podia chegar a R$ 500 mil, a depender do cargo disputado.
A operação mais recente, batizada de Concorrência Simulada, foi deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março de 2026 e cumpriu 13 mandados nos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Segundo a PF, a organização também é investigada por lavagem de dinheiro.
Além de Gustavo Xavier, outros nomes ligados às forças de segurança apareceram no radar das investigações. Reportagens repercutindo o caso apontam que investigadores e policiais civis próximos ao delegado também teriam atuado como intermediários ou beneficiários da engrenagem criminosa.
O impacto do escândalo é enorme porque joga uma sombra sobre concursos de alto nível e sobre a própria credibilidade do serviço público. Segundo as apurações divulgadas, o grupo atuava em seleções para tribunais, bancos públicos, universidades e cargos federais, incluindo o Concurso Nacional Unificado.
Procurado pela reportagem do Fantástico, Gustavo Xavier não foi localizado para entrevista. A equipe esteve na Delegacia-Geral da Polícia Civil de Alagoas e foi informada de que ele estava fora, sem previsão de retorno. Até aqui, não localizei manifestação direta dele sobre o conteúdo da delação; houve, porém, nota pública de entidades de delegados em defesa de sua conduta.






















